Há muita literatura sobre a história do Rio de Janeiro.
Aqui, tentamos enxergar tudo através do estômago.
Espremida entre dois morros que foram postos abaixo – o do Senado e o de Santo Antônio – a Rua do Senado sofreu, por muitos anos, as consequências dos arrasamentos.
Graças à poeira e ao caos que se seguiram, sua presença nos jornais de época era frequente, mas quase sempre na seção de queixas da população, que convivia com a lama, a escuridão e o mau cheiro, ou protestava contra “ladrões e gravateiros” que se escondiam nos destroços da derrubada.
N’O Volantim, publicação de 21 de agosto de 1823, enquanto a rua ainda tomava o apelido de Beco da Caçoada (ou Cassuada), um cidadão afirma que era “quase intransitável” e que havia “lama, entulho, rãs, sapos, pererecas”. Um outro jornal, arremata: “onde foram demolidas várias casas, cujos destroços servem de esconderijo a ladrões e gravateiros”. E no meio disso tudo, a sede da Câmara Municipal.

Naquela rua, havia uns trechos melhores e piores, mas até o fim do século XIX, funcionava mais como local de conveniência para quem vivia ali, do que com algum protagonismo. A imensa maioria dos moradores era de funcionários públicos, além de guarda-livros, tipógrafos, sapateiros, pintores, operários e, ocasionalmente, médicos ou procuradores.
Era uma rua de retaguarda, com depósitos de cereais; algumas padarias que também supriam outros restaurantes; gente que fazia “empadas, sequilhos e marmeladas, branca ou vermelha” sob encomenda; fábricas de cerveja: hotéis sem vocação turística: umas poucas casas de pasto e botequins.
Como não era hábito haver anúncios em jornais ou cardápios em restaurantes mais simples, além dos “cantados” diretamente ao freguês, há pouca pista sobre o que serviam.
A chegada da Família Real trouxe vida cultural e uma profusão de teatros e casas de shows que se estabeleceram na Rua do Lavradio e em torno da Praça Tiradentes. E a vida da Rua do Senado e arredores ficou tão interconectada aos espetáculos, que vários pratos, restaurantes e bares foram batizados com o nome de peças ou atores.
Na Rua Espírito Santo – atual Pedro I, que liga a Rua do Senado à Praça Tiradentes – o restaurante Maison Moderne, em 1886, trazia no cardápio um filé com o nome da atriz francesa Sarah Bernhardt, considerada uma das atrizes mais famosas de todos os tempos, depois de sua turnê pelo Rio de Janeiro.

No número 76 da Rua do Lavradio, entre as atuais Senado e Relação, o restaurante Éden, que também aceitava pensionistas, foi batizado em homenagem ao Theatro Éden-Lavradio, no n.96. Na publicação em francês chamada Étoile do Sud, naturalmente dirigida a estrangeiros, o Éden-Restaurant foi bastante anunciado ao longo do ano de 1895 como um dos estabelecimentos recomendados da cidade.

O maior rastro documental da gastronomia da Rua do Senado, no entanto, começa a partir de 1906, depois dos dois aterramentos, num terreno já plano que permitiu que florescesse.
Logo depois do desmonte do Morro, em 1907, surge o “Armazém Senado”, que segue firme com seus 115 anos de existência. No cardápio da época: sardinha frita, bolinhos de bacalhau e um curioso tira-gosto chamado "mec-mec" ou “sacanagem”. Servido no palito, vinha com provolone, tomate, cebola, salaminho e pimentão.
A partir dessa data, surgem as belas fachadas históricas que vemos, ainda hoje, e notamos uma quantidade crescente de botequins, padarias, casas de pasto (as precursoras dos restaurantes), cafés, secos e molhados, hotéis e açougues, ali listados. E, agora, para além das fábricas de cervejas, depósitos de café.
A região da Praça Tiradentes fica ainda mais rica em teatros, lá para o início do século XX, e três deles ficavam na Rua do Lavradio. Da necessidade de comer ou beber algo, antes ou depois dos shows, é que atores, cenógrafos, redatores e outros, emprestaram à Rua do Senado os primeiros contornos de boemia.

Quando lembramos que o horário de jantar no fim do século XIX se dava em torno de 16hs, e o da ceia, às 18hs, chama atenção que os estabelecimentos da Rua do Senado ficassem abertos “até 1 hora da noite”, como era o caso da Tim-Tim por Tim-Tim, uma ‘casa de petisqueiras’ na esquina de Lavradio com Senado, e um dos restaurantes mais longevos da área, inaugurado em 1888.
As petisqueiras eram casas simples, em geral de comerciantes portugueses, que tinham cardápio cantado pelos garçons. Serviam pratos como peixadas, bacalhoadas, papas à portuguesa (a precursora da nossa batata portuguesa), leitõezinhos dourados, tripas e feijoadas completas. Os funcionários, em geral, faziam o serviço em “mangas de camisa”, enquanto nos restaurantes, os usavam uniformes ou jaquetas brancas de linho.


O Tim-Tim por Tim-Tim funcionou até 1967 com uma clientela célebre, que incluiu Sarah Bernardt e sua contemporânea, a comediante francesa Réjane; diplomatas, Paulinho da Viola, que frequentava a casa nos anos 60, ou ainda o ex-presidente José Sarney que, em entrevista a Ancelmo Gois, em dezembro de 2008, cita o Tim-Tim como um dos preferidos da sua juventude. Seu cardápio de almoço e jantar era publicado, com bastante frequência, no jornal A Época, entre os anos de 1917 e 1918:

Já a Garoto do Senado, casa inaugurada em 1922 na rua Carlos Sampaio, esquina com Senado, tinha como especialidades as pescadas, peixadas à portuguesa, ostras, camarões e canjas.
Seus anúncios traziam pratos portugueses tradicionais, “Hoje! Hoje! Sarrabulho à portuguesa” ou “tripas à moda do Porto”, mas também, comidas popularizadas pelos africanos escravizados, como “vatapá” ou o popularíssimo “zoró de camarão”, prato de camarões secos com quiabos e ‘mulato velho’ (o bagre salgado e defumado).
Nos copos, “Vinho verde diretamente recebido de Cabeceira de Bastos. Pode garantir que não há melhor no Rio de Janeiro! O Garoto do Senado avisa aos apreciadores do bom vinho que não deixem de experimentar”.
No romance de João do Rio, Armando dá pistas do que se poderia comer num frege da Rua Espírito Santo, “devorou o caldo verde com grossos pedaços de pão, devorou o bife, sorveu meia garrafa de vinho, mastigou duas bananas”. Era assim.
Numa coluna de 1931, Ruben Gill, do Diário da Noite, faz “entrevistas oportunas sobre os problemas momentosos da vida carioca”. Em conversa com Manoel Rocha, ex-ator e proprietário da casa de petisqueiras “O Solar dos Barrigas”, entendemos que a casa tinha gabinetes reservados e, também, reconstituía o cenário da opereta homônima. De acordo com Gill, Sr. Manoel conseguia fazer esgotar todas as noites, as lotações e os pratos de sua casa na Rua do Senado, onde “noceurs de bom gosto” se reuniam para saborear as criações típicas da culinária lusitana. O jornalista pergunta com estranheza, que utilidade as instalações telefônicas tinham numa casa tão atraente, ao que Sr. Manoel responde:
- “Ah, o telefone? É a melhor invenção do mundo gastronômico! Tenho a impressão de que os aparelhos telefônicos foram inventados para toda gente encomendar-me “iscas” e assegurar mesas para os almoços, os jantares e as ceias!”. Era o prenúncio do que estava por vir.
Mais adiante, na história, outro depoimento reforça a conexão entre a Rua do Senado e os teatros:
“Eu vivi em muitas casas na Praça Tiradentes e nas imediações: Pedro I, Rua do Senado, Rua do Lavradio, Gomes Freire. (...) Saía pela manhã, almoçava na rua. À noite, saía do teatro e jantava, também por ali. A moradia dava direito a chuveiro, e se a família fosse camarada, a gente podia usar o fogão uma vez ou outra” – nos conta Dercy Gonçalves, a jovem vedete dos anos 40 no livro “Dercy: de cabo a rabo”, sua autobiografia assinada por Maria Adelaide Amaral.
E viva a nossa vedete, símbolo de irreverência e liberdade feminina!
Outro ícone carioca também faz história, desde 1965. Naquele ano, o sobrado da antiga padaria de Pietro Mandarino, na Rua do Senado, 273, foi comprado pelos donos da Padaria Globo, em Botafogo, e ali passou a ser - e é até hoje - a fábrica de um produto que é a cara do Rio: o Biscoito Globo.
Finalmente, depois de tanta história, chegamos à conclusão de que UM PRATO foi comum a todos os restaurantes, freges, petisqueiras e casas de pasto da rua: a CANJA. De longe, o maior símbolo de boemia, era servida a partir das dez da noite e alimentava artistas e convidados que deixavam os espetáculos arados de fome.
Pedro II (1825-1891) talvez tenha sido o responsável pela moda. Tinha o hábito de tomar uma canja entre o segundo e o terceiro atos de uma peça, e só depois de avisarem que havia terminado, seguia o show.

Símbolo da vida dos artistas e de quem caminhava pela madrugada, era o prato de eleição na região, após o espetáculo, e acabou ganhando o apelido de ‘canja da meia noite’.
“Dar uma canja”, enfim, é prática associada ao mundo artístico, às performances improvisadas que aconteceram tantas vezes em botequins, restaurantes e petisqueiras, num Rio que quase esquecemos.

