Rio de Janeiro: a história gastronômica de Laranjeiras

por Aureo Fernandes | fev 6, 2026 | Identidades Gastronômicas

Rio de Janeiro: a história gastronômica de Laranjeiras

Laranjeiras começou como um caminho que seguia o curso do Rio Carioca. Era lugar de chácaras rústicas, com hortaliças, mandiocais, criação de porcos e aves, cafezais, bananeiras e outros pomares, para o abastecimento da cidade. Foram as árvores, no entanto, plantadas pelos primeiros sesmeiros portugueses, que batizaram o lugar: “Larangeiras”, na grafia que persistiu até os anos 40. 

Naquele vale, a vida era feita do sobe e desce dos carros de boi margeando o rio.

De Laranjeiras desciam a água, as verduras, frutas e legumes frescos. Do centro da cidade, voltavam os secos e a matéria prima processada. Vinham manteiga, peixe seco, carne seca, cachaça ou “produtos do reino”, como farinha de trigo em barris, azeite, vinhos, queijo, pernil de porco, chás, presunto, peixes salgados e toda sorte de mantimentos que não apodrecesse em países quentes. 

A história da Rua das Laranjeiras é indissociável do Rio Carioca - a principal fonte de abastecimento de água doce da cidade até o fim do Império - até porque seu desenho atual foi esculpido pelas trilhas que margeavam suas águas, hoje canalizadas e invisíveis à população.

Às vésperas da chegada da família real, o censo de 1793 nos conta que São Sebastião do Rio de Janeiro tinha 17 casas de pasto (as precursoras dos restaurantes), 40 “casas de café” e 344 tabernas, mas todas confinadas ao centro da cidade para dar de comer e beber aos viajantes, profissionais liberais e a massa trabalhadora que ali circulava. Laranjeiras, no entanto, seguiu bem rural até a metade do século XVIII. A vida acontecia dentro das casas, e acompanhava a luz do dia, com o almoço servido às 8 da manhã e o jantar, ao meio-dia. 

Por ser um canto tranquilo e afastado das doenças da cidade, era como uma Petrópolis mais próxima, um lugar de veraneio. Como o Rio era o centro do poder político e cultural do país, de 1800 a 1940, passa a atrair a aristocracia, os fidalgos, as embaixadas e os estrangeiros de corpos diplomáticos, além de magistrados, ministros, altos funcionários públicos e ricos comerciantes. Com eles, uma estrutura de comércio de alto nível ligada pelo serviço de “bonds”. 

O “comer fora de casa”, que é o objetivo principal dessa pesquisa, acontecia, mas não era um hábito, do fim do Império até 1930. A vida social se dava em bailes, festivais, recepções, banquetes oficiais e saraus.

Grande Hotel Metrópole: The Rio News (19/11/1895)
Grande Hotel Metrópole: The Rio News (19/11/1895)

A reboque, surgem hotéis e pensões destinados a “senhoras e cavalheiros de alto tratamento”, e sempre “com cozinha de primeira ordem”, como afirmavam os anúncios de então. Os cardápios eram escritos sempre em francês, símbolo do refinamento gastronômico de então. 

Menu do casamento do futuro prefeito Paulo de Frontin (Imagem: Biblioteca Nacional, Acervo Digital)
Menu do casamento do futuro prefeito Paulo de Frontin (Imagem: Biblioteca Nacional, Acervo Digital)

A mesa da Rua das Laranjeiras teve mudanças marcantes ao longo do tempo:

Em 1880, é inaugurada a Fábrica de Tecidos Aliança e, com ela, uma nova fase do bairro, que precisava manter sua força de trabalho. Parte dos novos imóveis é construída pela própria empresa e surgem escolas de ensino básico, pontos de convivência, teatros e, também, um cinema, já no século XX.

Até 1893, a fábrica foi responsável pela chegada de pelo menos 800 pessoas a Laranjeiras, incluindo funcionários e suas famílias, locados em 144 casas. Tudo isso, naturalmente, criou uma demanda para botequins, cafés e restaurantes, que antes não existiam.

Fábrica de Tecidos Aliança: Acervo Light S.A.
Fábrica de Tecidos Aliança: Acervo Light S.A.

É importante entender que as definições de café, confeitaria ou botequim eram ainda mais fluidas. Os hotéis também serviam doces ou produtos de padaria e as confeitarias por vezes serviam refeições quentes. Num dos guia de época, uma casa vem relacionada como um café, mas em outro é classificada como botequim, por exemplo. 

Com o tempo, cada um achou  sua “vocação”, mas uma coisa é fato: a palavra asseio (a grande preocupação da época) aparecia em quase todos os anúncios de jornal, até 1870.

Em 1906, achamos na Rua das Laranjeiras a primeira referência a uma casa de pasto. Como era de costume, não tinham nome, nem nada. Sabia-se pela boca do povo ou vinham anunciadas em almanaques, jornais ou cartazes, com o simples endereço ou nome do proprietário. Ali, um certo F. Dutra dos Santos. 

Em 1914, já havia dois botequins, três açougues, três padarias, uma confeitaria, quatro quitandas e oito “secos e molhados” – espalhados pela Rua das Laranjeiras. Dez anos depois, surge a Casa do Minho, no encontro entre Laranjeiras e Cosme Velho.

Em 1930, cresce a oferta e o comércio local passa a contar, também, com quatro novos cafés, uma loja de balas e bombons, a Gaio Marti (que se tornaria uma rede de supermercados), uma leiteria e, muito importante, a Padaria Aliança (sobre a qual falamos na seção dedicada a Machado de Assis. 

Também na década de 30 e, por todo Rio de Janeiro, prosperam pensões e restaurantes abertos por imigrantes japoneses, inclusive a Pensão Laranjeiras, no número 49. 

Chácaras e palacetes dão lugar a pequenos prédios de dois andares, agora com a solidez do concreto armado.

Em 1936, uma antiga vila dá lugar a uma empresa de apartamentos que depois tomaria o nome de Hotel Souza Dantas - importante lembrar que, à época, era possível morar num hotel, assim como hoje alugamos um imóvel, com direito a levar nossos pertences, inclusive livros, guarda-roupas e pratarias. O hotel teve, talvez, o primeiro restaurante aberto à clientela, e acabou por se tornar o mais famoso na Rua das Laranjeiras do seu tempo. 

Hotel Souza Dantas: Correio da manhã (17/5/36)
Hotel Souza Dantas: Correio da manhã (17/5/36)

Dali em diante, o bairro passaria por inúmeras mudanças importantes: enfrentou a concorrência dos novos pontos da sociedade, como Copacabana, Glória e Urca, a partir dos anos 20; viu o corpo diplomático migrar para Brasília, a partir dos anos 60; e com a chegada dos túneis Santa Bárbara e Rebouças, deixa de ser um vale tranquilo e se transforma em importante ponto de passagem. Tudo isso influenciou na sua oferta gastronômica, que procurou se manter fiel à vizinhança.

Há muita tradição nas casas de Laranjeiras. O Mercado São José das Almas, de 1944, mais conhecido como Mercadinho São José, fechou as portas em 2018 e foi reinaugurado sete anos depois, em setembro de 2025, graças a um projeto de revitalização pela Prefeitura. E ainda, vários restaurantes conseguiram a romper a virada do século, como a antiquíssima Casa do Minho (1924), com sua cozinha tradicional portuguesa; a Rotisseria Sírio Libaneza (1972); o restaurante Mamma Rosa, com cozinha da Sicília e de Nápoles (1984); o Luigi’s e suas massas artesanais (1991) e a Churrascaria Gaúcha, de 1939, que depois de 84 anos, infelizmente fechou as portas em 2021. 

O Trégua Cozinha, após estrear em um pequeno e charmoso espaço na Rua das Laranjeiras, agora ocupa a cobertura do espaço cultural Telhado, sempre no bairro. 

Conheça mais sobre o restaurante. Clique aqui. 

Churrascaria Tropical: Última Hora (18/11/63)
Churrascaria Tropical: Última Hora (18/11/63)

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BIBLIOGRAFIA:

ALGRANTI, Leila Meizan. Tabernas e botequins, cotidiano e sociabilidades do Rio de Janeiro (1808 a 1821). Campinas: Unicamp, 2011 

BERGER, Paulo. Dicionário histórico das ruas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora, 1974 

CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro Setecentista - A vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2003 

CAVALCANTI, Nireu. História dos conflitos no Rio de Janeiro Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013 

COARACY, Vivaldo. Memórias da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965 

CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1965 

DÓRIA, Pedro. 1565 - Enquanto o Brasil nascia. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2012 

GERSON, Brasil. História das ruas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal, Folha Carioca Editora, 1965  

REZENDE, Renato. Memórias e curiosidades do bairro de Laranjeiras. Rio de Janeiro: João Fortes Engenharia, 1999